Hoje, quando acordei, Tia Gorete ainda estava no quarto. Sabia que alguma coisa havia acontecido, ela era sempre a primeira a levantar. Parecia um ritual que ela realizava todos os dias pela manhã, assim que acordava. Primeiro seu copo de água, ela dizia que abria as vísceras, depois corria para cima da geladeira e catava seu cigarro matinal. No mesmo pique colocava a chaleira no fogão e ia apitar seu cigarro enquanto a água fervia.
Seu café era forte e doce na proporção certa. Digo, que logo de início, foi difícil acostumar com o gosto do café forte, mas depois, fui me acostumando. Ela sempre tirava tempo para me explicar um pouco sobre o paladar do café. É difícil acreditar, como uma pessoa que fumava como a Tia Gorete tinha paladar? Mas ela tinha; o que ela dizia que era bom, era bom!
Assim que ela acabava de apitar seu cigarro, a água já estava no ponto de passar o café. Ela separava um copo, destes pequenos, de massa de tomate mesmo, e tirava o primeiro copo para ela. De modo que, enquanto o café terminava de coar, ela corria e acendia outro cigarro, agora, molhando o bico com o café quentinho. Era uma orquestra. Toda manhã o soneto se repetia.
Por isso, eu sabia que hoje havia um problema. Ela ainda estava na cama. Empurrei a porta bem devagarzinho e perguntei:
- Tia... A senhora esta acordada? – fiz uma pausa. – Esta tudo bem?
Ela me olhou com os olhos ainda fechado, mas sei que ela me via. Ela já estava acostumada com a minha fisionomia, ela só precisava era me ver na sua porta, que ela também já estava acostumada. Tia Gorete depois de um intervalo, respondeu:
- Não é nada minha querida. Apenas estou com um pouco de sono. Tive insônia esta noite. – ela não dava intervalo. – Mas foi bom, estou quase terminando aquele romance que comprei. A história esta divina. Como estou me divertindo.
Sei que era tudo conversa, na verdade, ela estava muito brava. Eu só ainda não sabia com o que ou com quem, mas isto era questão de tempo, daqui a pouco ela não iria agüentar e explodir como um rojão em festa de São João.
Dito e feito, não deram dois minutos e ela já estava na cozinha terminando de amarrar seu hobby azul. Aquele hobby era lindo. Ela me contou que certa vez, um moço muito rico se apaixonou por ela. Tia Gorete deveria ter na época uns 25 anos, o cabelo lhe caia pelos ombros, e como sempre fora muito magra, usava vestidos que lhe enaltecia ainda mais sua magreza. Por que mulher teima em ser magra? O moço devia ter uns 30 anos, ela me disse que ele era médico e que também era casado. Mas ele não vivia bem com a esposa e mantinham um casamento de fachada para criar os filhos. Este moço era muito apaixonado por ela, e fazia tudo que ela queria. Comprava-lhe jóias, livros, tecidos, vestidos e aquele hobby. Era fora os livros, a única lembrança que Tia Gorete guardava dele. Ela amava aquele hobby, acho que era por causa dos brilhos e dos paetês. Ela tinha um carinho enorme pela peça, lavava a mão, não permitia que secasse ao sol, não podia ver pregadores, secava estendido num cabide. Aliás, um cabide só dele, acho que ela nunca pendurou uma roupa diferente naquele cabide.
Aquele moço apaixonado se chama Ailton José, mas ele não era bonito como os padrões da época exigiam. Era forte, troncudo, cara fechada e se vestia mal. Ela me mostrou algumas fotos e eu pude fazer minhas próprias contestações. Ailton José, como ela gostava que lhe chama-se, nem Ailton, nem José, o nome era duplo e deveria ser pronunciado Ailton José.
Ailton José começou a fazer parte da minha vida, pois todos os dias ela tinha uma história deles para me contar. Às vezes a história era triste, outras vezes feliz. Mas num balanço geral as histórias eram mais felizes.
Esta é a história do hobby. Sei que não é assim uma história. Mas ela introduz Ailton José na vida de Tia Gorete. E eu já gostava dele, pois ele havia feito ela muito feliz durante anos de sua vida.
Quando ela terminou de amarrar o hobbie, eu já estava lhe estendendo a mão com um copo de café. Eu sei que ela já havia bebido água no quarto. Ela estendeu seu braço direito pegou o copo da minha mão e acendeu um cigarro:
- Vou te falar minha filha.
Eu sabia que agora ela iria contar o que a estava incomodando.
- Todas as vezes que chega uma carta da minha sobrinha Iara é um aborrecimento só. Você acredita que agora ela quer mais dinheiro. Disse-me que o que eu mando não esta dando para ela “se virar” na faculdade. “Se virar”, foi esta a expressão que ela usou na carta. Agora, uma moça que esta cursando medicina, numa das faculdades mais cara deste país, usar uma expressão desta. “Se virar”! – Tia Gorete fumava compulsivamente. Estava brava.
- Hoje em dia os jovens são assim mesmo Tia. – tentei em vão acalmá-la.
- Jovens, assim? Isto está errado. Primeiro: eu não vou mandar mais dinheiro para esta assassina da língua culta. Segundo: ela ou aprende a se comunicar comigo, ou esta encerrada a minha ajuda mensal. Isto não é possível. Gasto mais da metade da minha aposentaria com aquela menina e ela diz que não esta dando para “se virar”. Ela só pode estar de brincadeira comigo.
Pausa para um trago longo. E continua:
- Eu não tenho dinheiro minha filha. Eu ganho um salário mínimo por mês, Envio sessenta por cento do que ganho para esta menina e passo o resto do mês bordando para fora e naquela máquina de costura que você pode ver ali no canto da sala, remendando, desfazendo, fazendo para ter o que pelo menos comer até o final do mês. Esta menina parece não saber quanto custa cada centavo que mando para ela.
É claro que neste ponto da história você já deve estar se perguntando. E as jóias que ela ganhou do Ailton José? E o gosto requintado? E a faculdade de medicina? Sim, existe um intervalo de tempo na vida de Tia Gorete que é um mistério para mim. Ela havia contado que havia ganhado jóias, esbanjava dinheiro na sua juventude e agora vivia de aposentaria e dos favores que eu lhe prestava financeiramente. E ainda ajudava a sobrinha, que a explorava.
Tia Gorete sofria com isso. Ela sempre quis mais do que tinha. Ela não se contentava com o pouco, a fartura era um de seus maus. Gostava de esbanjar quando possuía um troco. Quando vendia seus bordados na feira e o lucro era maior que o esperado, ela não pensava em poupar e guarda para caso aparecesse um momento de precisão. Ela gastava tudo. Chegava a casa com um livro novo e dizia:
- Querida, venha ver. É novo, foi lançado estes dias na Bienal. Dá para acreditar? Este autor é super novinho e já faz tanto sucesso. Um gênio e um romancista de primeira. Conta neste romance, que já é o seu quinto, a história de uma senhora, assim como eu. Uma senhora que esta prestes a cometer uma loucura. Foi sucesso de crítica na Academia Brasileira de Letras. Dizem que ele é pós-contemporâneo.
Eu fazia que sim com a cabeça. Não via serventia para aquilo. Mas ela parecia entrar em estado de gozo.
Apagou o cigarro no meio e foi até seu quarto. Voltou com uns três comprimidos. Preciso me acalmar, ainda tenho a toalha da mesa de centro da Dona Laís para terminar. E ela virou os três comprimidos, garganta a baixo, com apenas um gole do café que estava na sua mão.
- Ainda morro disto! – ela dizia. Mas não morria, ela era forte.
Precisei me apertar para arrumar minhas coisas correndo e sair para o trabalho, aquelas crianças me esperavam. Olhei para Tia Gorete que ainda estava encostada na pia da cozinha fumando e disse:
- Procure se acalmar Tia. Volto para o almoço. – fiz uma pausa, como se pensasse em mais alguma coisa para dizer e terminei. – Faça o seu pano de centro para Dona Laís, esta ficando lindo, eu o vi ontem à noite, assim que cheguei do serviço. A senhora tem um dom nato para a arte Tia Gorete.
- Vai com Deus minha filha, eu não estou brava com você.
Era uma maneira de ela pedir desculpas por ter me contado suas fraquezas logo pela manhã. Eu entendia. Olhava para ela com um sorriso de filha e rezava para que ela ficasse bem sozinha durante a manhã.
- Fique com Deus também. Quando eu chegar quero ver o pano! – dizia já saindo.
E saía.

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