Laurette's head with a coffee cup (1917) & The black table (1919)

Laurette's head with a coffee cup (1917) & The black table (1919)
Henri Émile Benoît Matisse (1869-1954)

terça-feira, 19 de abril de 2011

HOBBY AZUL

                Hoje, quando acordei, Tia Gorete ainda estava no quarto. Sabia que alguma coisa havia acontecido, ela era sempre a primeira a levantar. Parecia um ritual que ela realizava todos os dias pela manhã, assim que acordava. Primeiro seu copo de água, ela dizia que abria as vísceras, depois corria para cima da geladeira e catava seu cigarro matinal. No mesmo pique colocava a chaleira no fogão e ia apitar seu cigarro enquanto a água fervia.

                Seu café era forte e doce na proporção certa. Digo, que logo de início, foi difícil acostumar com o gosto do café forte, mas depois, fui me acostumando. Ela sempre tirava tempo para me explicar um pouco sobre o paladar do café. É difícil acreditar, como uma pessoa que fumava como a Tia Gorete tinha paladar? Mas ela tinha; o que ela dizia que era bom, era bom!
                Assim que ela acabava de apitar seu cigarro, a água já estava no ponto de passar o café. Ela separava um copo, destes pequenos, de massa de tomate mesmo, e tirava o primeiro copo para ela. De modo que, enquanto o café terminava de coar, ela corria e acendia outro cigarro, agora, molhando o bico com o café quentinho. Era uma orquestra. Toda manhã o soneto se repetia.
                Por isso, eu sabia que hoje havia um problema. Ela ainda estava na cama. Empurrei a porta bem devagarzinho e perguntei:
                - Tia... A senhora esta acordada? – fiz uma pausa. – Esta tudo bem?
                Ela me olhou com os olhos ainda fechado, mas sei que ela me via. Ela já estava acostumada com a minha fisionomia, ela só precisava era me ver na sua porta, que ela também já estava acostumada. Tia Gorete depois de um intervalo, respondeu:
                - Não é nada minha querida. Apenas estou com um pouco de sono. Tive insônia esta noite. – ela não dava intervalo. – Mas foi bom, estou quase terminando aquele romance que comprei. A história esta divina. Como estou me divertindo.
                Sei que era tudo conversa, na verdade, ela estava muito brava. Eu só ainda não sabia com o que ou com quem, mas isto era questão de tempo, daqui a pouco ela não iria agüentar e explodir como um rojão em festa de São João.
                Dito e feito, não deram dois minutos e ela já estava na cozinha terminando de amarrar seu hobby azul. Aquele hobby era lindo. Ela me contou que certa vez, um moço muito rico se apaixonou por ela. Tia Gorete deveria ter na época uns 25 anos, o cabelo lhe caia pelos ombros, e como sempre fora muito magra, usava vestidos que lhe enaltecia ainda mais sua magreza. Por que mulher teima em ser magra? O moço devia ter uns 30 anos, ela me disse que ele era médico e que também era casado. Mas ele não vivia bem com a esposa e mantinham um casamento de fachada para criar os filhos. Este moço era muito apaixonado por ela, e fazia tudo que ela queria. Comprava-lhe jóias, livros, tecidos, vestidos e aquele hobby. Era fora os livros, a única lembrança que Tia Gorete guardava dele. Ela amava aquele hobby, acho que era por causa dos brilhos e dos paetês. Ela tinha um carinho enorme pela peça, lavava a mão, não permitia que secasse ao sol, não podia ver pregadores, secava estendido num cabide. Aliás, um cabide só dele, acho que ela nunca pendurou uma roupa diferente naquele cabide.
                Aquele moço apaixonado se chama Ailton José, mas ele não era bonito como os padrões da época exigiam. Era forte, troncudo, cara fechada e se vestia mal. Ela me mostrou algumas fotos e eu pude fazer minhas próprias contestações. Ailton José, como ela gostava que lhe chama-se, nem Ailton, nem José, o nome era duplo e deveria ser pronunciado Ailton José.
                Ailton José começou a fazer parte da minha vida, pois todos os dias ela tinha uma história deles para me contar. Às vezes a história era triste, outras vezes feliz. Mas num balanço geral as histórias eram mais felizes.
                Esta é a história do hobby. Sei que não é assim uma história. Mas ela introduz Ailton José na vida de Tia Gorete. E eu já gostava dele, pois ele havia feito ela muito feliz durante anos de sua vida.

                Quando ela terminou de amarrar o hobbie, eu já estava lhe estendendo a mão com um copo de café. Eu sei que ela já havia bebido água no quarto. Ela estendeu seu braço direito pegou o copo da minha mão e acendeu um cigarro:
                - Vou te falar minha filha.
                Eu sabia que agora ela iria contar o que a estava incomodando.
                - Todas as vezes que chega uma carta da minha sobrinha Iara é um aborrecimento só. Você acredita que agora ela quer mais dinheiro. Disse-me que o que eu mando não esta dando para ela “se virar” na faculdade. “Se virar”, foi esta a expressão que ela usou na carta. Agora, uma moça que esta cursando medicina, numa das faculdades mais cara deste país, usar uma expressão desta. “Se virar”! – Tia Gorete fumava compulsivamente. Estava brava.
                - Hoje em dia os jovens são assim mesmo Tia. – tentei em vão acalmá-la.
                - Jovens, assim? Isto está errado. Primeiro: eu não vou mandar mais dinheiro para esta assassina da língua culta. Segundo: ela ou aprende a se comunicar comigo, ou esta encerrada a minha ajuda mensal. Isto não é possível. Gasto mais da metade da minha aposentaria com aquela menina e ela diz que não esta dando para “se virar”. Ela só pode estar de brincadeira comigo.
                Pausa para um trago longo. E continua:
                - Eu não tenho dinheiro minha filha. Eu ganho um salário mínimo por mês, Envio sessenta por cento do que ganho para esta menina e passo o resto do mês bordando para fora e naquela máquina de costura que você pode ver ali no canto da sala, remendando, desfazendo, fazendo para ter o que pelo menos comer até o final do mês. Esta menina parece não saber quanto custa cada centavo que mando para ela.
                É claro que neste ponto da história você já deve estar se perguntando. E as jóias que ela ganhou do Ailton José? E o gosto requintado? E a faculdade de medicina? Sim, existe um intervalo de tempo na vida de Tia Gorete que é um mistério para mim. Ela havia contado que havia ganhado jóias, esbanjava dinheiro na sua juventude e agora vivia de aposentaria e dos favores que eu lhe prestava financeiramente. E ainda ajudava a sobrinha, que a explorava.           
                Tia Gorete sofria com isso. Ela sempre quis mais do que tinha. Ela não se contentava com o pouco, a fartura era um de seus maus. Gostava de esbanjar quando possuía um troco. Quando vendia seus bordados na feira e o lucro era maior que o esperado, ela não pensava em poupar e guarda para caso aparecesse um momento de precisão. Ela gastava tudo. Chegava a casa com um livro novo e dizia:
                - Querida, venha ver. É novo, foi lançado estes dias na Bienal. Dá para acreditar? Este autor é super novinho e já faz tanto sucesso. Um gênio e um romancista de primeira. Conta neste romance, que já é o seu quinto, a história de uma senhora, assim como eu. Uma senhora que esta prestes a cometer uma loucura. Foi sucesso de crítica na Academia Brasileira de Letras. Dizem que ele é pós-contemporâneo.
                Eu fazia que sim com a cabeça. Não via serventia para aquilo. Mas ela parecia entrar em estado de gozo.
                Apagou o cigarro no meio e foi até seu quarto. Voltou com uns três comprimidos. Preciso me acalmar, ainda tenho a toalha da mesa de centro da Dona Laís para terminar. E ela virou os três comprimidos, garganta a baixo, com apenas um gole do café que estava na sua mão.
                - Ainda morro disto! – ela dizia. Mas não morria, ela era forte.
                Precisei me apertar para arrumar minhas coisas correndo e sair para o trabalho, aquelas crianças me esperavam. Olhei para Tia Gorete que ainda estava encostada na pia da cozinha fumando e disse:
                - Procure se acalmar Tia. Volto para o almoço. – fiz uma pausa, como se pensasse em mais alguma coisa para dizer e terminei. – Faça o seu pano de centro para Dona Laís, esta ficando lindo, eu o vi ontem à noite, assim que cheguei do serviço. A senhora tem um dom nato para a arte Tia Gorete.
                - Vai com Deus minha filha, eu não estou brava com você.
                Era uma maneira de ela pedir desculpas por ter me contado suas fraquezas logo pela manhã. Eu entendia. Olhava para ela com um sorriso de filha e rezava para que ela ficasse bem sozinha durante a manhã.
                - Fique com Deus também. Quando eu chegar quero ver o pano! – dizia já saindo.
                E saía.

UMA PEQUENA OBSERVAÇÃO

Tia Gorete não é o tipo de senhora convencional que você espera encontrar por aí. Ela lia muito, estava muito a frente de seu tempo. E às vezes me pegava a pensar se, ela não estava à frente do meu tempo também.
Ela não estava dentro dos padrões. Ela era excêntrica na natureza da sua alma, embora muitas vezes a peguei tentando ser mais simples, ela não negava nos olhos que aquilo a incomodava. Ela ouvia reggae, ela era uma adolescente num corpo muito mais velho. Tentava transgredir o que as pessoas consideravam normal para provar que, o fora do comum, também é normal. Pois, ela se considerava normal e por isso podia fazer o que não o era considerado. Deste modo, ela era a prova viva de uma anormal normal.
Meu Deus! Não me julguem! Estou só concretizando em palavras alguns devaneios. Afinal, convivo com ela e essa loucura toda está entranhada nos meus pensamentos mais íntimos. É isto que divido aqui. Os meus pensamentos mais íntimos, mais eu.
A loucura de Tia Gorete era mais que real. Ela trazia para discussão, assuntos tão nosso. Tão parte de nosso coração e no nível de um raciocínio comum. Eu gostava muito dela.

CONTRASTE

- Agora o inverno esta chegando e nós precisamos trazer a primavera para dentro de nossa casa. – eram essas as explicações de Tia Gorete para aquele mundo de flores que habitavam agora nosso apartamento.

Renoir

O cheiro do seu almoço tomava conta do prédio, à medida que me aproximava da porta de entrada do nosso apartamento, mais intenso e saboroso era aquela flagrância culinária para meu olfato. A cada dia era uma surpresa, nunca adivinhará um só cardápio dela. Acho que era porque ela inventava muito deles. Era esse seu segredo. Ela criava as receitas na sua cabeça e depois dizia que se chamava: Quibe libanês toscano, porque vai carne de vaca e carne de porco, juntos.
Não sei ao certo, mas acredito que ela era muito sozinha, se não fosse Tia Odélia, que morava no outro extremo do país, poderia jurar que ela estava sempre sozinha. Passava às vezes dias deprimida, nunca soubemos na verdade os motivos, mas suspeitávamos. Ela contava muito de sua vida a nós. Tinha vezes que duvidávamos, eram muito exorbitantes os casos. Ela tinha cara de quem tivera sido muito arteira e atraente quando mais nova, mas, não. Definitivamente havia histórias que ela inventava, assim como as receitas. Acho que era para dar mais sabor a sua vida.
                A cima de sua imponência, agora jazia um vaso de margaridas. Aquele velho piano haveria de se conforma com a escolha de Tia Gorete e sustentar sobre sua exime e insígnia madeira de lei, aquele vaso de polipropileno, barato, com exuberas flores brancas.
                Uma vez li que era “preciso ter um mínimo de erudição e sensibilidade poética”. Não me recordo a que ou a quem se retratava esta frase, mas caberia perfeito ao estilo de Tia Gorete. Sem estes requisitos básicos, não a compreenderia.
                - A não ser que eu fosse a Leila Navarro, muito argumentadora ou uma loira siliconada e sem vergonha na cara, aquele moço da TV a cabo viria aqui em casa, sem estarmos na sua programação diária, querida. – foi assim que ela me respondeu quando lhe perguntei:
                - Tia, por que você não pede para os instaladores da TV a cabo, que estão no telhado da vizinha, dar uma olhada na TV daqui de casa?
                Ela não era grossa, apenas respondia o que lhe vinha na cabeça. E às vezes o que se passava em sua cabeça, era completamente assustador. Ainda tenho tempo para contar suas bizarrices, embora muito inteligente e astuta para algumas coisas, muitas vezes parecia uma criança doce, indefesa e delicada. Eu gostava de morar com ela.
                Engordei dez quilos depois que ela se mudou lá para casa. Uma coisa de louco sua comida, aquele tempero baiano irá me perseguir pelo resto de anos que ainda me faltam. Não gostava das azeitonas, mas ela adorava. Quando as tinham, era uma alegria.
                - Note o tempero! – exclamava para mim, debruçada com aqueles ossos rígidos e que sustentavam aquele corpo sem forma. O hálito de cigarro acompanhava suas palavras, era como feijão e arroz, o corpo e a alma dos viciados em nicotina. Suas mãos estavam sempre cheirando cigarros e suas roupas, estás até não exalavam tanto cigarro, ela era muito limpa.
                - Sim... Mais uma vez a senhora acertou Tia Gorete! – eu explodia em simpatia para agradar-lhe. Nunca sentia a diferença, eu sabia que era bom, era muito gostosa sua comida. Mas eu não tinha o paladar definido para gosto cada vez mais peculiar. Aquilo às vezes soava como inútil para mim. Eu simplesmente queria sentar e almoçar, nada mais.
                Mas não podia desagradar Tia Gorete, tinha que manter seu humor quando presente.
                - Nunca comi um strogonoff tão bom! Foi o tempero que eu trouxe da casa de minha mãe?
                Eu vi que seu semblante não chegou a mudar, mas me pareceu, mesmo que de repente, que ele ficou um pouco menos corado.
                - Sim minha filha, mas também tem as azeitonas! Hoje comprei azeitonas pretas no mercado, logo pela manhã. – e secava a mão no avental, para pegar um cigarro sobre a geladeira. Era sobre a geladeira que ela deixava o maço, o isqueiro, o cinzeiro e seus óculos.
                Eu percebi que não tinha acertado, ela também. Mas mesmo assim ela era muito elegante para me corrigir, mesmo que estivéssemos apenas nós duas.

                Quando terminei de entrar a sala, que agora parecia um mini jardim de inverno, ela pulava histérica na cozinha:
                - Agora o inverno esta chegando e nós precisamos trazer a primavera para dentro de nossa casa.
                Foi o que ela havia feito. Desmontou um monte de caixas que guardavam flores, já velhas, da inquilina anterior a ela, e espalhou pela casa. Com maior ênfase a nossa sala, agora, mini jardim de inverno. Naquele dia em especial ela havia feito um cardápio nunca antes experimentado pelo meu paladar. Embora para alguns que com certeza dirão que eu nunca provei além do trivial, eu os íntimo para uma prova de paladar. E para aqueles que se conformam com minha simples narração dos fatos, naquele dia Tia Gorete havia feito carne suína moída. Sempre havia comido carne de vaca moída, de terceira, de primeira, mas carne de porco moída? Sim, e estava muito bom. Acho que foi por causa da primavera que agora iria nos visitar até o próximo solstício de verão. Aonde a decoração fria e paterna, toma o lugar da decoração quente e materna. Será natal e a neve e os pinheiros tomarão lugar na casa, contrastando com o calor amarelo que reinará do lado de fora.