- Agora o inverno esta chegando e nós precisamos trazer a primavera para dentro de nossa casa. – eram essas as explicações de Tia Gorete para aquele mundo de flores que habitavam agora nosso apartamento.
![]() |
| Renoir |
O cheiro do seu almoço tomava conta do prédio, à medida que me aproximava da porta de entrada do nosso apartamento, mais intenso e saboroso era aquela flagrância culinária para meu olfato. A cada dia era uma surpresa, nunca adivinhará um só cardápio dela. Acho que era porque ela inventava muito deles. Era esse seu segredo. Ela criava as receitas na sua cabeça e depois dizia que se chamava: Quibe libanês toscano, porque vai carne de vaca e carne de porco, juntos.
Não sei ao certo, mas acredito que ela era muito sozinha, se não fosse Tia Odélia, que morava no outro extremo do país, poderia jurar que ela estava sempre sozinha. Passava às vezes dias deprimida, nunca soubemos na verdade os motivos, mas suspeitávamos. Ela contava muito de sua vida a nós. Tinha vezes que duvidávamos, eram muito exorbitantes os casos. Ela tinha cara de quem tivera sido muito arteira e atraente quando mais nova, mas, não. Definitivamente havia histórias que ela inventava, assim como as receitas. Acho que era para dar mais sabor a sua vida.
A cima de sua imponência, agora jazia um vaso de margaridas. Aquele velho piano haveria de se conforma com a escolha de Tia Gorete e sustentar sobre sua exime e insígnia madeira de lei, aquele vaso de polipropileno, barato, com exuberas flores brancas.
Uma vez li que era “preciso ter um mínimo de erudição e sensibilidade poética”. Não me recordo a que ou a quem se retratava esta frase, mas caberia perfeito ao estilo de Tia Gorete. Sem estes requisitos básicos, não a compreenderia.
- A não ser que eu fosse a Leila Navarro, muito argumentadora ou uma loira siliconada e sem vergonha na cara, aquele moço da TV a cabo viria aqui em casa, sem estarmos na sua programação diária, querida. – foi assim que ela me respondeu quando lhe perguntei:
- Tia, por que você não pede para os instaladores da TV a cabo, que estão no telhado da vizinha, dar uma olhada na TV daqui de casa?
Ela não era grossa, apenas respondia o que lhe vinha na cabeça. E às vezes o que se passava em sua cabeça, era completamente assustador. Ainda tenho tempo para contar suas bizarrices, embora muito inteligente e astuta para algumas coisas, muitas vezes parecia uma criança doce, indefesa e delicada. Eu gostava de morar com ela.
Engordei dez quilos depois que ela se mudou lá para casa. Uma coisa de louco sua comida, aquele tempero baiano irá me perseguir pelo resto de anos que ainda me faltam. Não gostava das azeitonas, mas ela adorava. Quando as tinham, era uma alegria.
- Note o tempero! – exclamava para mim, debruçada com aqueles ossos rígidos e que sustentavam aquele corpo sem forma. O hálito de cigarro acompanhava suas palavras, era como feijão e arroz, o corpo e a alma dos viciados em nicotina. Suas mãos estavam sempre cheirando cigarros e suas roupas, estás até não exalavam tanto cigarro, ela era muito limpa.
- Sim... Mais uma vez a senhora acertou Tia Gorete! – eu explodia em simpatia para agradar-lhe. Nunca sentia a diferença, eu sabia que era bom, era muito gostosa sua comida. Mas eu não tinha o paladar definido para gosto cada vez mais peculiar. Aquilo às vezes soava como inútil para mim. Eu simplesmente queria sentar e almoçar, nada mais.
Mas não podia desagradar Tia Gorete, tinha que manter seu humor quando presente.
- Nunca comi um strogonoff tão bom! Foi o tempero que eu trouxe da casa de minha mãe?
Eu vi que seu semblante não chegou a mudar, mas me pareceu, mesmo que de repente, que ele ficou um pouco menos corado.
- Sim minha filha, mas também tem as azeitonas! Hoje comprei azeitonas pretas no mercado, logo pela manhã. – e secava a mão no avental, para pegar um cigarro sobre a geladeira. Era sobre a geladeira que ela deixava o maço, o isqueiro, o cinzeiro e seus óculos.
Eu percebi que não tinha acertado, ela também. Mas mesmo assim ela era muito elegante para me corrigir, mesmo que estivéssemos apenas nós duas.
Quando terminei de entrar a sala, que agora parecia um mini jardim de inverno, ela pulava histérica na cozinha:
- Agora o inverno esta chegando e nós precisamos trazer a primavera para dentro de nossa casa.
Foi o que ela havia feito. Desmontou um monte de caixas que guardavam flores, já velhas, da inquilina anterior a ela, e espalhou pela casa. Com maior ênfase a nossa sala, agora, mini jardim de inverno. Naquele dia em especial ela havia feito um cardápio nunca antes experimentado pelo meu paladar. Embora para alguns que com certeza dirão que eu nunca provei além do trivial, eu os íntimo para uma prova de paladar. E para aqueles que se conformam com minha simples narração dos fatos, naquele dia Tia Gorete havia feito carne suína moída. Sempre havia comido carne de vaca moída, de terceira, de primeira, mas carne de porco moída? Sim, e estava muito bom. Acho que foi por causa da primavera que agora iria nos visitar até o próximo solstício de verão. Aonde a decoração fria e paterna, toma o lugar da decoração quente e materna. Será natal e a neve e os pinheiros tomarão lugar na casa, contrastando com o calor amarelo que reinará do lado de fora.

Nenhum comentário:
Postar um comentário